Mulheres plantam diversidade e colhem alimentos saudáveis a preços justos

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No Vale do Ribeira (SP), a Rede Agroecológica de Mulheres Agricultoras (RAMA) produz uma abundância que escapa à lógica do mercado

Toda última quinta-feira do mês, bem cedinho, um caminhão começa a percorrer a estrada cheia de curvas e entre morros que liga a cidade de Barra do Turvo, no interior de São Paulo, e a BR 116. Ele recolhe alimentos cultivados e produzidos por cerca de 70 agricultoras organizadas em 11 grupos que compõem a Rede de Agroecológica de Mulheres Agricultoras (RAMA).

O Rede Ecológica de Mulheres Agricultoras (RAMA) ganhou este nome em 2019,
quatro anos depois de começar a sua organização. Foto: João Ambrósio / O Joio e O Trigo

O dia vai clareando e, no percurso, o caminhão apanha as caixas arrumadas à beira da estrada pelas agricultoras dos bairros da zona rural onde há participantes da RAMA. Nas caixas vão mudas, farinhas, café, pães, feijões, palmitos, açúcar mascavo, banha, chips de banana e mandioca, salgados, doces, geleias, conservas, mel, queijo e ricota, massas e bolos, temperos, polpas de frutas, fitoterápicos, legumes, verduras e frutas in natura. São cerca de uma tonelada de centenas de variedades de vegetais e dezenas de alimentos preparados artesanalmente.

Em fevereiro, quando visitamos Barra do Turvo, um dos produtos ofertados era tema de conversas no país inteiro, por conta da alta dos preços: os ovos. No caso, ovos de galinhas caipiras, vendidos pelas agricultoras a R$ 15 a dezena, enquanto nos supermercados de São Paulo a dezena chegava a R$ 19. Os preços da rede são reajustados somente uma vez por ano, em assembleias das produtoras com os grupos de consumo, independente da carestia dos alimentos. Isso é possível porque a comercialização da organização, que completa uma década em 2026, não se baseia em princípios do mercado.

Seus fundamentos são a economia solidária, o feminismo, a agroecologia, a soberania alimentar, a defesa dos territórios e modos de vida das agricultoras, o combate ao racismo e a todas as formas de violência. Esses princípios também são adotados pela rede de grupos de consumo solidário que compra os alimentos da RAMA, chamada Esparrama. Há  grupos auto-organizados nas cidades de Registro, Diadema e nas zonas Oeste, Leste e Sul de São Paulo, além de pontos de venda como o Instituto Baru, o Instituto Chão e o Instituto Terra Viva, todos na cidade de São Paulo. Os acordos de funcionamento da rede foram elaborados coletivamente e resguardam a autonomia das mulheres sobre a produção. A adoção de regras diferentes das praticadas pelo mercado torna possível a prática de preços justos, tanto para quem produz quanto para quem compra.

Um dos segredos da estabilidade nos preços da RAMA é que “as agricultoras têm autonomia em relação ao mercado conectado com a economia global, as suas oscilações, as especulações do mercado financeiro”, constata Natália Lobo, técnica da equipe da SOF. “É diferente de ser um produtor que precisa comprar adubo nitrogenado para plantar, e quando tem guerra na Ucrânia o preço do adubo vai lá para cima. Outra coisa é ter um sistema de produção bastante autônomo em termos de insumos necessários para o plantio e a criação, com relações muito desmercantilizadas em comparação ao resto da agricultura convencional”, explica. 

Casa de Dona Dolíria, no Quilombo Ribeirão Grande-Terra Seca. Foto: João Ambrósio / O Joio e O Trigo

Além disso, se os ovos sobem de preço porque o milho subiu, há sempre a possibilidade de comprar milho das vizinhas, por meio de relações de cuidado, confiança, interdependência e reciprocidade que também são cultivadas entre as mulheres. A mesma coisa vale para mudas e sementes, doadas ou trocadas, e para o conhecimento desenvolvido por meio das experiências com o plantio em seus quintais, sempre compartilhado entre elas. O valor dessas relações não é considerado pela economia clássica.

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Compromisso com as mulheres 

“Nós começamos a RAMA pra ajudar o direito das mulheres. Porque tinha muitas mulheres sofridas, muitas mulheres sem palavras, prejudicadas pelo marido, muitas apanhavam e não tinham direito a um dinheiro, nada, só dependendo do marido, né? Isso é que veio primeiro.” É assim que dona Dolíria Rodrigues de Paula, moradora do quilombo Ribeirão Grande-Terra Seca, explica a origem da rede, em 2015, a partir de  um trabalho de assistência técnica e extensão rural (ATER) da organização Sempreviva Organização Feminista (SOF) no Vale do Ribeira.

Nilce Pontes, coordenadora da Associação do Quilombo Ribeirão Grande-Terra Seca, participante da RAMA e da Articulação Nacional de Agroecologia, conta que a relação entre a SOF e as comunidades quilombolas começou no III Encontro Nacional de Agroecologia, em 2014. “A SOF já estava fazendo o programa de extensão rural na região. Então a Miriam Nobre, da SOF, veio conversar comigo.” 

Nilce Pontes, coordenadora da Associação do Quilombo Ribeirão Grande-Terra Seca.
“Em Barra do Turvo não havia assistência técnica e rural voltada para as mulheres agricultoras”.
Foto: João Ambrósio / O Joio e O Trigo

Naquele momento, em Barra do Turvo, havia assistência técnica e extensão rural do sindicato de trabalhadores rurais e havia a da Cooperafloresta, uma associação de agroflorestas. Mas as mulheres precisavam de algo que levasse em conta sua condição de… mulheres. Depois da conversa no encontro de agroecologia, a SOF foi à Barra  do Turvo se apresentar às quilombolas. Dona Isaíra Maria de Pontes Maciel Pereira, mãe de Nilce e neta de Miguel Pontes Maciel, fundador do quilombo Ribeirão Grande, perguntou: “Esse trabalho de vocês. É serviço ou é compromisso?” Era compromisso. É até hoje.

No Vale do Ribeira, que fica na fronteira entre os estados de São Paulo e do Paraná, está a maior porção contínua de Mata Atlântica do Brasil, totalizando 1,7 milhão de hectares. Ali vivem muitas comunidades tradicionais: quilombolas, povos indígenas Guarani e Kaingang, caiçaras. As mulheres que formam a RAMA moram em comunidades rurais de Barra do Turvo, um município com 6,9 mil habitantes. A maioria trabalha em suas roças e quintais desde crianças, usando técnicas de manejo aprendidas com mães, avós, bisavós e agricultoras vizinhas.

As mulheres da RAMA têm diferentes formas de (ou falta de) acesso à terra, dependendo de como se constituiu a comunidade a que pertencem. Além de quilombolas, há pequenas agricultoras que vieram de outros estados e descendentes de famílias de trabalhadores rurais de Barra do Turvo. As comunidades quilombolas vivem há gerações na região e participaram da criação da Cooperafloresta, em 1988, para onde levaram seus conhecimentos tradicionais sobre como cultivar alimentos em meio a árvores, sem precisar “limpar” a área de cultivo e replantar tudo de novo depois de cada colheita. Elas vivem em meio à Mata Atlântica.

Em 2005, essas comunidades formaram uma associação para fazer seu autorreconhecimento como remanescentes de quilombos e exigir a titulação das terras que habitam. Na RAMA, também há mulheres que estão organizadas na Comissão Pastoral da Criança desde os anos 1980; há mulheres mobilizadas na resistência contra a tomada de suas terras por unidades de conservação; há agricultoras familiares com pouca ou nenhuma área de cultivo – suas terras foram tomadas por fazendas ou vendidas pelos mais velhos a fazendeiros, por pouco ou quase nada, em meio a conflitos fundiários causados pelo ciclos de expansão de monoculturas ou da pecuária no município. 

Em 2015, em parceria com a SOF, teve início um processo para tirar da invisibilidade o trabalho das mulheres em suas casas e quintais e valorizar seu papel na economia de suas famílias e comunidades.

Uma dessas mulheres é Vera Lúcia Lourenço Costa, do bairro Indaiatuba. “Sou agricultora agroecológica, sou filha de agricultores, participo de movimentos que mobilizam as mulheres, como a RAMA, faço parte do Comunidade que Sustenta a Agricultura, da Espiral de Sementes do Paraná. Moro em Barra do Turvo e tenho uma área pequena de terreno e sobrevivo dela. Aqui tem tudo para a gente sobreviver, plantamos tudo junto e misturado, são muitas variedades. Vou falar algumas, mas são mais de cem”.

Desenho que Vera Lúcia fez do quintal agroecológico onde cultiva uma centena de espécies e variedades de alimentos.

Vera trabalha com cará-mandioca do branco, do roxo e do amarelo, cará-de-espinho e cará-moela. Planta variedades de chuchu, abóbora, inhame chinês, inhame rosa e inhame mangarito. Tem diversidade de canas-de-açúcar, pupunha, juçara, palmeira real, mandiocas de várias qualidades, taiá, taioba. Há, ainda, bananas da terra, caturra, são tomé, ouro, maçã, prata, índia, pacovã, sorvete. E limão rosa, limão taiti, jaca de três variedades: dura, mole e cor de rosa. Tem ora pro nobis, tomatinho, amora, abacate, pitanga, acerola. Arroz, feijões, araruta. Diversidades de laranja: champanhe, mexerica, lima, cidra, amarga, sanguínea. Tem muitas frutas, uva japão, pêssego, goiaba, café. E hortaliças. “A gente não tem um plantio grande de nada, é tudo de pouco, para poder consumir e vender os excedentes. Mesmo assim, a gente perde muita mercadoria aqui, muita mesmo.”  

Vera Lúcia em sua casa. “A gente não tem plantio de nada, é tudo pouco.”
Foto: João Ambrósio / O Joio e O Trigo

Se você pulou a longa lista acima, lhe convidamos a voltar a ela – devagar. Não há maneira eficaz de dar conta, por escrito, da abundância dos quintais das mulheres em Barra do Turvo. O que pode parecer uma uma lista de compras é, na verdade, uma descrição da fartura que existe em um lugar que o estado de São Paulo considera “pobre”, quando é descrito por frios índices econômicos. Nesta lista ainda falta muita coisa. As matas. Os rios.

Vera cultiva uma área onde o rio Turvo faz uma curva. Quando há enchente, o rio toma tudo. Quando a água baixa, depois da enchente, tudo recomeça. Lá está ela, de novo cultivando seu quintal, sem usar agrotóxicos ou fertilizantes químicos, apenas cuidando do solo e usando matéria orgânica para manter sua fertilidade. Ano retrasado semeou 14 diferentes variedades de feijão, mas perdeu sete delas por causa das chuvas. Este ano plantou sete e perdeu três. Vai recompor sua variedade de sementes e plantar novamente. Enquanto isso, no planeta verde e fértil que é esta curva de rio, dezenas de outras plantas crescem, verduras, frutas, palmitos, tubérculos, legumes. Tudo junto e misturado.

Diversidade

Roças são espaços normalmente usados para uma produção específica e temporária: mandioca, milho, feijão. No modo tradicional de produzir,  há rotação das espécies plantadas e também entre os locais onde há  roça, para a terra poder recuperar sua fertilidade. Quintais são espaços que as mulheres cultivam em torno de suas casas e manejam cotidianamente. Incorporam, além da produção de alimentos, plantas ornamentais, medicinais, experimentações com mudas e sementes. E também flores e outras belezas que parecem não servir para nada, mas proporcionam bem estar a quem cuida delas. “Quintal é tudo que fica em volta da casa da gente, assim, tudo que a gente plantou, que a gente tem, que a gente planta”, diz Dolíria. “Quase toda a mulherada tem.”

Dona Dolíria: “Quintal é tudo que fica em volta da casa da gente, tudo que a gente plantou,
que a gente tem, que a gente planta.” Foto: João Ambrósio / O Joio e O Trigo

A pluralidade do quintal de Vera não é exceção entre as agricultoras e agrofloresteiras da RAMA. “Os espaços sob domínio das mulheres possuem maior diversidade e maior complexidade de manejo do que aqueles manejados pelos homens”, escreveu, em 2018, Liliam Teles, que faz parte do Grupo de Trabalho de Mulheres da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) e é militante da Marcha Mundial das Mulheres, na dissertação “Desvelando a economia invisível das agricultoras agroecológicas: a experiência das mulheres de Barra do Turvo, SP”.

Essa diversidade de produção é o ponto de partida nas compras da RAMA, onde o jeito de comercializar foi criado de forma a acolher o que as agricultoras cultivam. A cada mês, elas informam o que vão colher em suas hortas e quintais e os grupos de consumo fazem suas encomendas a partir dessa oferta. Ao longo de quase dez anos de comercialização, nunca faltaram alimentos ou produtos artesanais. Ao contrário. “Toda vez que tem discussão sobre reajustes, nas assembleias, elas dizem que preferem que se formem mais grupos ou que os grupos existentes comprem mais, em vez de aumentar os preços”, constata Natália, da SOF. Porque, como nos explica Vera, muita produção ainda é perdida.

Um dos instrumentos usados para dar visibilidade à produção monetária e não monetária das mulheres foi o projeto das Cadernetas Agroecológicas, executado pelo GT Mulheres da Articulação Nacional de Agroecologia e financiado pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) a partir de 2016, antes do período do impeachment da presidenta Dilma Rousseff. O projeto foi desenvolvido em diálogo com mulheres dos movimentos sociais e com organizações de assessoria técnica e extensão rural, como a SOF, em todo o país. Agricultoras de Barra do Turvo participaram. 

Em uma caderneta, durante um ano, elas anotaram cotidianamente o que colhiam, o volume e o valor monetário da produção que foi para consumo próprio, para venda, para troca ou para doação. O trabalho com as cadernetas mostrou que 70% do valor dos alimentos produzidos pelas agricultoras do bairro do Córrego da Onça e 32% no quilombo Terra Seca iam para o autoconsumo, fundamental para manter a segurança alimentar das famílias.

Na produção dos homens, em monocultivos próprios ou de terceiros, a colheita é feita uma vez por ano. Já uma parte importante da produção das mulheres alimenta suas famílias próximas e estendidas o ano inteiro. Um dos combinados das produtoras é este: “Nossa produção tem como primeiro destino nossa alimentação ou da família com quem moramos, os que moram em outras cidades, filhos, parentes, comadres. Nunca tirar da mesa para vender”.

Segurança alimentar 

As pessoas que vivem no quilombo Ribeirão Grande-Terra Seca não compram feijão no supermercado. Elas plantam. Em janeiro, Claresdina Alves dos Santos, comemorava a colheita de feijão pardinho, que bastou para que todos os seus sete filhos levassem 10 a 20 quilos para casa. Feijão para o ano quase inteiro, apesar das chuvas que fizeram parte da produção se perder — e esta parte vai voltar para a terra e virar adubo. Seus pés de lichia também carregaram e ela vendeu muitas caixas.

Dona Claresdina a caminho de collher lichias na agrofloresta que fica no entorno de sua casa.
Foto: João Ambrósio / O Joio e O Trigo

Os dados do Censo Agropecuário de 2017, do IBGE, consideram como produtores agrícolas de lichia em Barra do Turvo somente os que têm mais de 50 pés. Dona Claresdina, que tem menos de 50 pés, não aparece ali. A jaqueira da agrofloresta de Dona Dolíria, que dá de 150 a 200 quilos de carne de jaca por ano, também não aparece. Tampouco as laranjas de Vera. Nem o café que Nilce Pontes planta, colhe, torra, toma todos os dias e o oferece às visitas, alheia ao preço do mercado. Nem os ovos do Córrego da Onça, que foram consumidos pelas famílias das agricultoras e também vieram no caminhão de fevereiro. 

Nada disso aparece nas contas da produção agrícola de Barra do Turvo porque a forma de o IBGE fazer o Censo não considera esta produção variada e em quantidades que, ao considerar cada quintal individualmente, parece pequena. Ao se organizar na RAMA, as mulheres dão visibilidade a esta produção de forma coletiva – e aí sua dimensão fica mais próxima do que representa no mundo concreto.

O Censo Agropecuário tem como unidade o estabelecimento agropecuário. “Nós sempre estamos na batalha para que se aperfeiçoe e consiga mostrar o que acontece dentro desta unidade: como o trabalho se organiza, as desigualdades. Se a pessoa responsável pelo estabelecimento  é mulher, homem, ou se é o caso de uma responsabilidade conjunta, onde há uma codireção” conta Miriam Nobre, da SOF. Esses dados mostram que, em todo o Brasil, nos estabelecimentos onde a finalidade principal é o consumo próprio, ou autoconsumo, 56% têm uma mulher como responsável. Em 39% um homem é responsável e em 43% há codireção. O Censo não mostra, no entanto, o peso econômico da produção para o autoconsumo em estabelecimentos onde a finalidade principal é a comercialização. “Isto é a caderneta agroecológica que mostra”, aponta Miriam. 

A caderneta começou a ser criada e usada entre as agricultoras da Zona da Mata de Minas Gerais, que queriam entender como as famílias seguem produzindo café. Com a pesquisa, entenderam que a produção para o autoconsumo, contínua, dá estabilidade às famílias frente às oscilações de preços de insumos e do produto e as variações de safra por causa do clima.

Antes das cadernetas, as próprias agricultoras não tinham muita noção do que produziam, porque nunca pararam para registrar algo que faz parte de seu cotidiano. “A gente não dava valor pras coisas que a gente tinha. Foi um… Nossa, tem tudo isso?”, conta Dona Maria Izaldite Dias, do bairro Bela Vista, em Barra do Turvo. Neste processo, elas passaram a enxergar quanto de sua alimentação vem dos quintais. “Vimos que era importante e fomos plantando mais. Daqui a pouco já tinha pra comer e também pra mandar pra São Paulo, quando a gente conseguiu essas vendas.” As vendas são muito importantes, ela afirma, porque dão liberdade às mulheres. “Tinha que pedir tudo pro marido. Com as vendas, elas podem ir lá e comprar algumas coisas com o dinheirinho delas, né? Ter uma renda, ajudar em casa.”

No Córrego da Onça, agricultoras comprovaram sua produção em pequenos espaços de terra
e foram registradas no Cadastro Nacional da Agricultura Familiar. Foto: João Ambrósio / O Joio e O Trigo

Outra forma de invisibilidade diz respeito ao acesso a políticas públicas. No Córrego da Onça, as mulheres possuem muito pouca terra para plantar. Moram em lotes pequenos, onde suas famílias foram espremidas da expansão das fazendas de monocultura.  

A RAMA inclui, na lista de ofertas, alimentos preparados nas cozinhas, como pães, geleias e bolos. Isso é uma dimensão da solidariedade entre as agricultoras: assim, mesmo quem não tem terra ou tem muito pouca pode participar da comercialização. Além disso, em coletivo, elas descobrem espaços na comunidade onde se pode fazer hortas. Outra iniciativa importante foi o registro no Cadastro Nacional da Agricultura Familiar (CAF). Somente com este documento, que reconhece a condição de agricultoras a quem vive de plantar e criar, elas podem ter acesso a direitos previdenciários e a políticas públicas federais, estaduais e municipais de apoio à agricultura familiar. 

Para tirar o CAF, é preciso comprovar a relação com a terra. Mas as mulheres do Córrego da Onça não possuem sequer o módulo mínimo considerado, nos critérios do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), como “terra”. Desde 2016, elas passaram a registrar sua produção nas cadernetas e suas vendas na RAMA. Com esses dados em mãos, solicitaram uma reunião com o MDA e conseguiram seus CAFs. Com a ressalva de que tentariam ampliar a área de produção e comercialização. Com o CAF, as mulheres do Córrego da Onça ficaram aptas a receber um fomento oferecido pelo programa ATER Mulheres Rurais, do MDA. Apelidaram o fomento de fermento –  afinal ele contribui para aumentar a produção. O dinheiro da comercialização acaba entrando na casa, para comprar coisas para as crianças, uma geladeira melhor, uma máquina de lavar. O fermento, no entanto, veio direto para suas atividades produtivas. E elas decidiram aplicá-lo na formação de galinheiros.

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Cuidado coletivo

Dona Izaldite fez a capacitação das demais mulheres da RAMA para o uso das cadernetas agroecológicas. Guardou o dinheiro que recebeu pelo trabalho e, durante a pandemia, fez uma vaquinha para completar os recursos e construir a Sala do Aconchego Esperança. Ali, ela confecciona fitoterápicos e recebe mulheres que precisam de apoio e conversas. Realiza uma dimensão de cuidado que todas as agricultoras da RAMA consideram da maior importância. Sempre que uma desanima, encontra forças nas demais “Esses grupos trouxeram isso pra gente. A gente tem necessidade de um olhar, de um abraço, de um carinho”, se emociona Izaldite. “Porque uma se importa com a outra.”

No espaço que criou para receber mulheres e confeccionar fitoterápicos, Dona Izaldite conecta o cuidado com as companheiras e o cuidado com a terra. Foto:João Ambrósio / O Joio e O TrigoNo espaço que criou para receber mulheres e confeccionar fitoterápicos, Dona Izaldite conecta o cuidado com as companheiras e o cuidado com a terra. Foto:João Ambrósio / O Joio e O Trigo

O coletivo faz parte de um modo de viver.  Agricultores e agricultoras do Vale do Ribeira sempre realizaram mutirões ou reunidas e pixecas (quando os grupos são menores), momentos de trabalho coletivo para ajudarem uns aos outros a preparar a terra para o cultivo e manejar o plantio. A RAMA foi a primeira organização a realizar mutirões somente de mulheres, como mostra o filme “Vida em Mutirão”, e a incluir o preparo das refeições na lista de trabalhos realizados – o que não ocorria em mutirões mistos ou coordenados por homens. As mulheres se ouvem mais, se cuidam mais e estão mais preparadas para respeitar as maneiras de cada uma fazer as coisas e não separam o trabalho produtivo na terra do trabalho de reprodução, nas cozinhas. 

A RAMA faz mutirões mensais, cada vez em um bairro diferente. Nos bairros, os grupos também fazem seus próprios mutirões. Neste trabalho em coletivo elas se encontram, se apoiam e aprendem formas de cada uma manejar seus quintais e roças. Na cidade, os grupos de consumo também participam do mutirão para descarregar os alimentos que chegam todos os meses.

Com o tempo, a RAMA começou a reservar um percentual do dinheiro da comercialização em um fundo que é usado, entre outras coisas, para pagar o transporte das mulheres para os mutirões. Não é incomum, no entanto, que seja necessário usar esses recursos para pagar exames médicos ou remédios de alguma delas, ou de parentes. Ou que uma agricultora se endivide para poder pagar um tratamento. A falta de acesso à saúde é um dos problemas que elas enfrentam, é um sintoma da falta de acesso a políticas públicas e a direitos fundamentais.

A prefeitura de Barra do Turvo cede à RAMA o uso do caminhão do qual falamos no começo da reportagem. Quando ele quebra, e isso acontece muito, é com o dinheiro do fundo que se aluga outro. Em 2024, Barra do Turvo elegeu um prefeito que descende de quilombolas. “Um japonês quilombola”, sorriem as agricultoras. Victor Maruyama, do Podemos, é filho de Roseli Gonçalves Pontes e neto de Joaquim Gonçalves, da comunidade do Quilombo Reginaldo. As mulheres da RAMA estão esperançosas com esta gestão. Pela primeira vez, desde que Barra do Turvo se transformou em município, em 1964, uma pessoa que conhece em primeira mão a origem quilombola daquele território está à frente do Poder Executivo local.

A história do município sempre se deu em um rumo oposto ao da valorização das comunidades tradicionais. Ao longo de décadas, tanto a Barra quanto o Vale do Ribeira foram campo de experimentos de projetos vindos de fora. Mineração, porcos, milho, madeira e serrarias, bananas, pupunha, búfalos. Estradas, barragens. A cada ciclo do chamado “desenvolvimento”, um produto ou projeto “salvador” foi escolhido para trazer fatura à cidade, rememora Nilce Pontes. A riqueza gerada, no entanto, não veio para todos. A lógica desses projetos sempre foi um motor de exploração da terra, do trabalho das pessoas e de geração de desigualdades.

RAMA é uma palavra que brota do chão, na forma de muitas plantas. Mandioca, abóbora, cará, chuchu, maracujá, uva… As agricultoras de Barra do Turvo contam que o nome de sua rede  é como a diversidade das plantas que cultivam, em especial a batata doce cultivada pelas antepassadas. “Somos como a rama da batata doce que, plantada cada qual a sua forma, em uma roda, em coroa, em leira, começa a enramar, se espalha, vai tomando espaço e produz raízes que garantem alimento”, escreveram em seu combinado coletivo.

Quando a SOF começou a trabalhar no Vale do Ribeira, em 2015, uma das primeiras coisas que as agricultoras disseram foi: “A gente sabe plantar, a gente faz isso toda a vida. Precisamos comercializar.” Enquanto elas tiverem garantia de permanência em suas terras, os alimentos saudáveis, produzidos de forma agroecológica, estarão no campo. E grupos de pessoas podem se organizar para comprar esses alimentos. O que falta é ampliar o apoio a esta produção ligada à vida das mulheres e à logística para que esses alimentos cheguem às pessoas que vivem nas cidades.

Artigo Mulheres plantam diversidade e colhem alimentos saudáveis a preços justos publicado em O Joio e O Trigo.

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